segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Os Olhos da Medusa

Ontem ela me viu. E acenou pra mim. Finalmente ela me viu. Aqueles olhos... Eu torcia tanto pra ela me ver, apesar de sempre me esconder quando ela se aproximava. Hoje eu não sei se vou esperá-la, e se ela me vir de novo? Vai achar estranho. Com certeza. Vai começar a reparar que eu estou sempre ali em cima. Sempre vigiando sua saída e sua chegada. Vai me achar estranho. Talvez eu seja mesmo estranho. Sim, eu sou muito estranho.
Desde que ela se mudou para a casa ao lado, eu me acostumei a sua rotina. Todo dia, na mesma hora, ela saía de manhã e retornava no fim da tarde. No começo, apenas quando eu me lembrava, corria à janela e a esperava passar. Depois de alguns dias, foi se tornando um hábito até que atualmente eu conto os minutos e me preparo ansiosamente para vê-la.
Eu realmente devo ser muito estranho, mas não consigo resistir. Quando eu a espero e ela não passa, sinto como se a Terra tivesse parado de girar, os hidrogênios do Sol tivessem parado de colidir e o meu coração tivesse parado de bater. Tudo parado. Fico ali de sentinela por algumas horas imaginando se ela teria se atrasado, imaginando o que poderia ter acontecido. Teria adoecido? Sofrido algum acidente? Será que passou mais cedo? Ou só tirou um dia para ficar em casa? Esses são dias vazios e torturantes. Talvez minha vida seja vazia e torturante e talvez essa tenha sido a forma que encontrei de dar sentido a ela. Ou não, talvez a culpa seja mesmo dela, no ápice daquela perfeição, causadora da ira de Afrodite! Sim, até a deusa do amor a veneraria, como poderia eu resistir?
Quer saber, já está quase na hora, eu vou até lá e fico bem escondido atrás da cortina, ela não vai me ver hoje, não vai saber que eu estou ali todo dia, não vai saber que eu sou tão estranho, vai achar que foi um simples acaso eu estar ali ontem bem na hora em que ela chegava. Um outro dia, quem sabe, eu fico mais a vista e torço pra ela acenar pra mim novamente, mas hoje não...
Lá vem ela, já consigo vê-la no fim da rua. Acostumei-me com o seu andar elegante e o olhar sempre a frente, mas hoje parece que há alguma coisa diferente. Ela vem com a cabeça baixa. E vem rápido, quase tropeçando na própria passada. Está se aproximando mas ainda não consigo vê-la com definição para afirmar, sem dúvidas, que há algo errado. Mas eu já sei que há algo errado. Sim, agora eu sei de fato que há algo errado. Apesar de cabisbaixa, mesmo com os cabelos cobrindo parte do rosto, mesmo tentando se esconder com vergonha de andar pela rua naquele estado, percebi que ela chorava.
Todo o esplendor esvaído. O que eu faço? O que pode ter acontecido a ela? Minha vontade é de correr e alcança-la ainda na rua, envolvê-la em meus braços e dizer que tudo vai ficar bem, que eu vou protegê-la do que quer que a aflija, e então, talvez, se nossos olhos se encontrassem, iria dizer que a amo mais que tudo nesse mundo. Mas ela nem me conhece... Ou pior, talvez já tenha reparado que estou sempre a sua espera e até conte histórias sobre mim para seus amigos: “o cara estranho que está sermpre na janela”. De qualquer forma, eu preciso saber se ela vai ficar bem, acabar com a causa de seu sofrimento, extinguir seus transtornos, trazer de volta a ela a paz usual.
Sinto-me impotente. E covarde. Eu sou mesmo um covarde... Medroso! Sempre fui! Um covarde consciente que sempre teve medo de deixar de ser covarde. Aliás, esse deve ser meu maior medo: deixar de ter medo. Não sei o que temo mais do que isso. E também nem sei porque esse é meu medo, não é por opção, medo não se escolhe.
Pensando bem, talvez esse seja o motivo de eu ainda estar aqui hoje, talvez seja esse medo que me prenda ainda à casa dos meus pais e me impeça de mudar, de experimentar o novo, esse medo que me faz envelhecer em uma vida vazia. O que eu fiz até hoje de que pudesse me orgulhar? Qual o maior desafio que superei? É desesperador não achar respostas para essas perguntas. E se eu morrese amanhã, minha vida teria feito a diferença para alguém? Estou estagnado a tanto tempo que se tornou impossível perceber, os anos parecem ter passado tão depressa, a corrida já está na metade e eu nem comecei a correr. As minhas referências vêm somente das músicas e dos filmes, do mundo mesmo eu não sei nada. Eu não sou nada.
Eu podia já há muito tempo ter me apresentado a ela, e então poderíamos nos tornar amigos, poderíamos sair juntos e logo ficaria óbvio para ela – assim como é pra mim – que nós deveríamos ficar juntos para sempre. Mas não, estou hoje aqui do mesmo jeito e ainda nem sei seu nome.
Meus olhos têm me mostrado a perfeição, mas isso não me é mais o suficiente. Preciso estar perto, preciso ouvir sua voz, conhecer suas histórias, sentir seu cheiro e tocar sua pele. Senão estes meus olhos já não mais teriam razão de existir, apenas me mostrariam o que eu não posso ter, matando-me de desgosto.
Hoje eu não tenho como vê-la novamente, não tenho coragem de chamá-la em sua casa ou de estabelecer qualquer outra forma de contato. Amanhã, no entanto, espero mudar todo esse cenário. Vou finalmente acabar com essa tortura.
Sim, amanhã vou finalmente acabar com essa tortura. Preciso inventar uma forma de conversar com ela, mais do que um simples aceno, vou fazer parte de sua vida. Mas como? Imagino que para outras pessoas seria fácil, mas para mim será, com certeza e sem exagero, a tarefa mais dificil de toda a minha vida!
Poderia esperar por ela na rua, já sei seus horários, quando ela estiver chegando eu estaria lá, inventaria uma história qualquer e aos poucos ficaríamos conhecidos. Posso começar com um cumprimento, falar do clima, em outro dia perguntaria se seu dia teria sido agradável, depois perguntaria seu nome e então já seríamos conhecidos. Eu já teria liberdade de visitá-la em sua casa, sairíamos juntos... Sim! Ou não... Não sei. Eu não conseguiria falar com ela dessa forma, ou, se conseguisse, ela não iria me responder, ou responderia apenas por educação.
E se eu esperasse por ela não aqui em frente de minha casa, mas a algumas quadras daqui, simulando perfeitamente que eu também estaria voltando para casa. Aí teríamos mais tempo para conversar, eu poderia me apresentar, perguntaria finalmente aonde ela vai todos os dias, se gosta do que faz e levantar hipóteses do que poderia tê-la feito chorar hoje. Sim! Parece perfeito.
Já consigo imaginar, eu espero furtivamente em  alguma rua, assim que ela passar eu a alcanço, a princípio ela fica envergonhada, responde brevemente. Sim, já consigo imaginar...
“Olá!”
“Oi...”.  Ela se surpreende e até se assusta, mas se acalma quando me reconhece.
“Tudo bem?”. Eu pergunto como se acreditasse que nosso encontro tivesse sido obra do mais puro acaso.
“Tudo”. Claro, ela não falaria para mim tudo o que a atormenta, vou precisar de mais tempo.
“Está calor hoje, não é?”
“É...”
Não! Falar do clima não vai me levar a nada! Preciso ser mais direto...
“Eu sempre vejo você passar por aqui mais ou menos nesse mesmo horário, qual seu nome?”
Não. Não posso falar que sempre a vejo passar, ela vai me achar estranho. Se bem que provavelmente ela vai me achar estranho de qualquer forma. Mas seria melhor adaptar...
“De vez em quando eu vejo você passar por aqui sempre nessa mesma hora, qual seu nome?”
Parece melhor. Então ela me diria seu nome e eu diria o meu, já seria um ótimo começo. Se ainda não estivermos próximos de casa, perguntarei também onde ela vai todo dia, quais seus planos para o futuro, o que ela gosta de fazer, qual tipo de música prefere, quais os filmes favoritos...
Se os ventos me trouxerem coragem, poderia dizer o quanto eu a admiro...
Calma! Certamente isso geraria uma situação constrangedora, eu não saberia como agir. E também, sei muito bem que não conseguiria dizer isso, todas minhas forças já serão usadas para iniciar a interação. Não teríamos tempo para tão aprofundado diálogo. Preciso ir devagar. Primeiro preciso me concentrar apenas em como me apresentar. Acredito que dessa forma tenho boas chances. Amanhã será o dia que marcará uma nova fase da minha vida, vou dormir.

Mal consegui dormir essa noite. Nas poucas horas em que o sono conseguiu me dominar, ela me apareceu em sonho. Estávamos em um lindo parque correndo de mãos dadas, rindo sem motivo aparente, nada nos preocupava, o mundo estava perfeito.
Logo mais, darei o primeiro passo para transformar esse sonho em realidade.
Estou aqui em uma esquina a uma boa distância de casa. Ela deverá passar a qualquer momento. O tempo está agradável, eu estou com minha melhor roupa, cabelo arrumado, barba feita, perfumado, impecável. Tudo corre bem, só preciso esperar. Será que hoje, assim como ontem, ela estará desesperada em prantos? Espero que não. Se bem que, pensando bem, seria bom, pois eu já estaria aqui pronto para oferecer um ombro amigo, mostrar-lhe que ela não está sozinha. Não, melhor não. Primeiramente, suas lágrimas me assustariam e eu não saberia como agir, e mesmo se me superasse, ela ainda não me conhece, não compartilharia suas mágoas com um estranho – em todos os sentidos.
E então eu desejei com todas as minhas forças que meus olhos estivessem me enganando. Levei um bom tempo para acreditar que o que eu via era real. Não é possível, como eu não tinha considerado uma coisa dessas? Quando percebi o que acontecia, desejei com ainda mais força sumir do planeta, mas permaneci estático, paralizado e incrédulo. Ela se aproximava. Estava feliz. Bastante feliz, envolta nos braços de um mais feliz ainda.
Ela me viu. E acenou pra mim... Ele também.

sexta-feira, 11 de março de 2011

O que move o mundo?


Não, não pensava na inércia quando escrevi o título. O meu mundo supracitado não é o nosso planetinha esférico azul cinzento que orbita nossa estrela mestre. Meu mundo envolve a sociedade, envolve as pessoas e seu estado global atual. E o que nos tira do estado de repouso? Não, não pensava no seu chefe ou na sua mãe. O que nos mantém em movimento são as ideias.


Sim, as ideias movem o mundo. São elas responsáveis por estarmos hoje em tal nível de desenvolvimento tecnológico e cultural. Milhares de ideias que foram cultivadas por milhares de anos por milhares de pessoas nos trouxeram até aqui e ainda nos levarão para onde quer que seja.

Agora vamos ao que interessa: o fantástico mundo das ideias, da lógica e da argumentação!

Eu me surpreendi há um tempinho atrás ao me deparar com pessoas bem instruídas acharem que o homem nunca foi à Lua ou então duvidarem do evolucionismo. Debater esse tipo de coisa é como debater se a Terra é redonda. Existem inúmeras provas e evidências de que se trata de um planetinha esférico azul cinzento que orbita nossa estrela mestre. Da mesma forma, existem provas e evidências para os temas acima.

Além disso, para qualquer ideia ou opinião se valer, é necessário apenas uma única prova irrefutável (prova irrefutável chega a ser pleonasmo, não acham?). Se, por exemplo, alguém chegasse pra mim e me desse uma única prova de que Deus existe, eu me converteria na mesma hora. Como isso ainda não aconteceu, vou esperando...
O que acontece, no entanto, é que as pessoas se prendem a ideias antigas e são tão cabeças-duras que mesmo defronte a evidências, mantêm suas crenças ultrapassadas. (Aliás, a teimosia é um comportamento muito irritante. Se alguém souber o que motiva a teimosia e o que se passa na cabeça de um teimoso, por favor me diga ali em baixo nos comentários.)

Como as ideias movem o mundo, esse tipo de comportamento acaba por agir como impedimento ao progresso natural humano. Ou então, em casos extremos, nos levam a um retrocesso.

E não basta apenas possuir as ideias. É necessário ter também consigo a arte do debate e da argumentação. Uma pessoa sem ideias e uma pessoa que não sabe defender suas ideias são praticamente a mesma coisa.

Eu não sou dono da verdade, mas sou um fiel defensor dela. E as ideias são mutantes, se desfazem e se refazem mais fortes frente a novas evidências. Esse movimento é o movimento do mundo, nosso motor e nosso determinante. Então vamos deixar de defender ideias as quais não temos provas e começar a lutar bravamente para espalhar uma opinião fundamentada em fatos e baseada na lógica.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Escrúpulo Esculpido

Ela, quando criança, jogava-se sem culpa no colo de seu amigo mais velho. E amava estar ali, sentia a proteção paterna, o carinho de um irmão e o calor de um amigo.

Ele também adorava sua amiguinha. Fazia-a rir, ensinava-a e aprendia. Acima de tudo, impressionava-se com a forma sincera que ela o estimava.

Não muito tempo a seguir, as coisas foram gradualmente se tornando diferentes. Ela começou a evitar o contato físico, não havia mais abraços nem brincadeiras. Restara apenas conversas superficiais sem significado nem utilidade.

Ela sentia falta da proximidade e intimidade perdida. Não entendia porque não conseguia mais se entregar. Não sabia se era vergonha ou outra coisa. Havia em sua cabeça alguma voz dizendo que aquilo era errado, que não era um comportamento adequado para a mocinha a qual estava se tornando. Preocupava-se com o que as pessoas diriam, tinha medo de ser julgada, tinha medo do que o próprio destino lhe reservava. Preocupava-se com essas pequenas coisas que outrora eram indiferentes.

Ele também sentia falta do comportamento antigo de sua amiguinha, porém sabia que cedo ou tarde isso iria acontecer, sabia que, com o passar dos anos, ela iria se afastar e começar a ser mais reservada. Só não entendia o que motivava esse comportamento...

Ambos seriam para sempre saudosos à época em que a moral sem sentido da sociedade não tinha a menor importância.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O Caminhão

Seu nome era Fernando. Isso pouco importava pois poucos além de seus pais sabiam disso.
Era mais baixo que os garotos de sua idade, tinha traços definhados que combinavam com sua expressão. Não falava enquanto não lhe perguntassem, e mesmo quando lhe era interrogado, respondia brevemente sem emitir opinião.

Eu, com os privilégios de narrador onisciente, posso dizer que ele era muito mais complexo e dinâmico do que aparentava. Por traz do rosto mirrado se escondia um propulsor de ideias, uma mente interrogativa e observadora com potencial para revolucionar o mundo. Ele sabia que não era uma companhia agradável, que não era atraente e que construíra, sem querer, uma barreira que repelia qualquer tipo de contato físico mais íntimo. E sabia também que estava acima da média, que tinha um quê de genialidade em seus pensamentos. Queria que fosse diferente, queria trocar razão por emoção. Esperava que quando fosse um adulto com vida estável e de notoriedade intelectual pudesse reverter esse estado.

E assim foi postergando sua infância. Esperando que certo dia atingisse um ponto de maturidade onde deixaria de ser repulsivo e antipático. Enquanto esse dia não chegasse, continuaria focando-se nos estudos e nos seus planos acadêmicos para o futuro. Sentia falta da vida social, mas esperava ser reconhecido depois de divulgados os seus primeiros trabalhos.

Fernando (esse era o nome do personagem, esquecido leitor) estava, aos 22 anos, em seu quarto pensando -- quem visse da porta do quarto diria que ele não estava fazendo nada, mas eu novamente faço uso do poder de narrador onisciente para discordar: ele estava já finalizando mentalmente todo seu trabalho que ainda viria a ser digitado, visualizava de tempo em tempo todo o status que teria após a divulgação. Para ele, eram ideias que mudariam completamente a vida na Terra. Sua mãe entrou no quarto, viu o filho que aparentava a mesma expressão de tédio e pediu para que fosse à padaria em seu favor.

O filho prefiriria ficar em casa, mas já estava em débito com a mãe e acabou cedendo. Andava pela rua enquanto os pensamentos continuavam em seu futuro. Foi atravessar a avenida. Foi atropelado por um caminhão. Foi-se.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Rua Europa

Escrevi essa crônica há 2 anos, talvez não partilhe mais de tudo que disse aí, mas ayways, aí está.

Eu estava entediado admirando o teto. Meus pensamentos vagavam infinitamente. A cada minuto voltava minha atenção para a tela do computador, que outrora já servira muito para me divertir, agora não passava de um aparelho ultrapassado e sem muitas utilidades. “Como a tecnologia avançava! O que ontem era novidade, logo já estava aposentado e substituído”.

Outros pensamentos assim, sem muita importância, me vinham a cabeça, mas não me importava, minha vida continuava na mesma rotina e aquilo me deixava cada vez mais inquieto.

Precisava mudar, experimentar coisas novas, viver e aproveitar todos os anos que me escapavam. Em breve a idade chegaria e não teria mais tempo ou disposição para sair ao mundo. Mas nada de muito radical também podia fazer, a situação financeira não permitia que eu pudesse me esbanjar de luxos e prazeres desnecessários.

E aquele dilema impregnou em minha cabeça e não me deixou, todas as tentativas de distração eram fracassadas.

Havia pouco tempo que chegara em casa vindo do mercado, entrei sorrateiro em casa, embora tenha idade suficiente para morar sozinho, morava com meus pais. Liguei a televisão para assistir o noticiário, para saber as diversas desgraças que aconteciam pelo mundo. Logo a primeira notícia que passava no monitor mostrava o novo ganhador da loteria, felizardo! Seu sorriso ia de orelha a orelha, também pudera, acabara de embolsar milhões de reais.

Como eu invejava aquela fortuna! Sonhava tanto em enriquecer e pessoas conseguiam assim, apostando na sorte. De que me adiantara tanto estudo e tempo perdido em minha adolescência se iria apodrecer naquela cadeira na casa dos meus pais. Fazia vários tipos de trabalho para ajudar nas despesas da casa enquanto meu diploma mofava na gaveta. Quando criança achava que assim que deixasse a faculdade encontraria minha fortuna, mas as coisas não foram nada do jeito que achei que seriam... elas nunca foram.

Cansado de ficar ali, agonizando minhas idéias, saí na rua para esperar alguma coisa acontecer. Como se estivesse esperando que o bilhete premiado da loteria caísse do céu e resolvesse todos meus problemas. Estava tudo calmo, a rua não era movimentada, ficava num bairro afastado do centro, por ali só passavam alguns moradores.

Olhei para os lados e concluí que nada aconteceria ali, estava decidido a voltar quando uma linda mulher aparecera dobrando a esquina. Ela andava olhando ao redor, procurando por alguma coisa. Era perfeita; o jeito de andar, o balançar ondulante dos cabelos, a expressão do olhar preocupado e encantador.

Ela estava se aproximando e eu não conseguia deixar de olha-la. Quando estava a alguns metros de mim, nossos olhares se encontraram, ela sorriu e eu me senti envergonhado, estava de chinelos, com o cabelo desarrumado e uma camiseta amassada. E, como um sonho, ela veio em minha direção:

– Oi, você, por acaso, sabe onde é a Rua Europa?
Gaguejei:
–É... Aquela ali embaixo, só entrar a direita.
Ela agradeceu com um sorriso inesquecível e saiu sem deixar eu falar mais nada.
– Filho, vem me ajudar com a roupa!
– Já vou, mãe – Entrei.

E de repente as coisas começaram a fazer sentido.

sábado, 25 de julho de 2009

Em busca da felicidade!

A felicidade é o sentimento mais cobiçado pela humanidade. Todas as escolhas são feitas com o intuito de alcançar mais momentos felizes. Se você escolhe trabalhar ou largar o trabalho; ficar rico; estudar mais ou dormir mais; fugir de casa; ir morar nas montanhas; montar uma plantação de melancias geneticamente modificadas... Você só se decide depois de considerar qual escolha te fará mais feliz.

Mas afinal, o que felicidade é?

Não sei, às vezes até desconfio que exista. Não que eu seja um infeliz depressivo que vê desgraça em tudo, mas não consigo definir um sentimento chamado felicidade.

Talvez nada mais que bons momentos, risadas com amigos, esquecer da vida por alguns instantes, curtir um show, conhecer o mundo, montar uma plantação de melancias geneticamente modificadas... Mas tudo é momentâneo, nada disso dura muito, e, uma hora ou outra, você cai na real de novo, volta a rotina, recupera os problemas, as preocupações, esquece tudo isso.

Por isso não consigo acreditar na felicidade eterna. “E viveram felizes para sempre.” Bah! Que bobagem! Aliás, nem teria graça, uma vida inteiramente perfeita, sem problemas, sem desafios, sem metas.

Mas, no entanto, esse é o ideal para muitas pessoas, e pra tentar moldar esse mundo 100% feliz, que elas o disfarçam. Preferem acreditar num mundo de ficção, vivem numa realidade alternativa para, assim, apreciarem esse sentimento indefinível que chamam felicidade.

Uma vez que você é cego, você pode imaginar o mundo do jeito que lhe agradar. Mas uma vez que abre os olhos, não adianta mais fecha-los pois a verdade vai estar gravada na sua mente. E aí, ser feliz, fica um pouco mais difícil...

domingo, 5 de julho de 2009

A vida medieval ainda persiste!


Esse necessariamente teria de ser meu primeiro post pois ele é o fundamento para que todas minhas idéias e conceitos se desenvolvam. Acredito que todos os meus pensamentos expostos futuramente serão apenas uma conseqüência desse primeiro.

Afirmei no título que o estilo de vida medieval ainda retumbava na atualidade, agora me explico: No tempo do feudalismo existia uma enorme opressão da igreja católica que espalhava a ideologia de que é mais difícil um rico entrar no céu do que o Sílvio Santos fazer uma participação especial numa novela da Globo. Ainda diziam os santíssimos que a vida terrena devia ser de sofrimento, sem prazeres ou sorrisos e esse era o único caminho do paraíso.

Agora, mais de 500 anos depois, pouca coisa mudou.

De fato, hoje em dia há mais liberdade, o próprio fato de eu poder redigir esse texto já exemplifica uma grande diferença praquela época. Porém, muitas das religiões, senão todas, estimulam limites, regras e deveres aos seus seguidores que os privam de seus desejos pessoais.

O mistério do pós-vida amedronta a humanidade desde que o primeiro pensamento surgiu no homem pré-histórico e a promessa da salvação eterna é tentadora demais pra uma pessoa pensar duas vezes antes de fazer tudo que for preciso pra se livrar do fim de seus dias. Ainda se ameaçada com o fogo do inferno e a danação eterna, não há como não se sentir intimidado, abaixar a cabeça e obedecer.

Esse poder divino imensurável e inexplicável serve pra explicar todas as falhas humanas. É muito mais fácil falar que Deus não quis do que assumir os próprios erros, é mais fácil dizer que Deus tem um plano pra o futuro do que sentir-se com medo da próxima curva da vida. E por amenizar esses sentimentos que seriam fatais, que religião e humanidade sempre andaram juntos, um não poderia viver sem o outro.

E devido a isso, as igrejas cobram dos fiéis atitudes e perfis em troca da salvação. Regras formadas por humanos, por vários humanos, milhares de religiões cada uma com seu costume e suas crenças. Cada uma com o próprio jeito de ver o universo sempre com extrema convicção. Além de sua doutrina ser a correta, todas as outras são erradas e levam à perdição.

Agora a pergunta que eu me faço:
É notável que uma pessoa religiosa se sente bem com suas crenças, tem sempre alguém a quem recorrer nos piores momentos e tem sempre uma motivação extra pra ansiar o amanhã. Mas é possível conseguir ter uma pitadinha de fé considerando os argumentos acima verdadeiros?