Ontem ela me viu. E acenou pra mim.
Finalmente ela me viu. Aqueles olhos... Eu torcia tanto pra ela me ver, apesar
de sempre me esconder quando ela se aproximava. Hoje eu não sei se vou
esperá-la, e se ela me vir de novo? Vai achar estranho. Com certeza. Vai começar
a reparar que eu estou sempre ali em cima. Sempre vigiando sua saída e sua
chegada. Vai me achar estranho. Talvez eu seja mesmo estranho. Sim, eu sou
muito estranho.
Desde que ela se mudou para a casa
ao lado, eu me acostumei a sua rotina. Todo dia, na mesma hora, ela saía de
manhã e retornava no fim da tarde. No começo, apenas quando eu me lembrava, corria
à janela e a esperava passar. Depois de alguns dias, foi se tornando um
hábito até que atualmente eu conto os minutos e me preparo ansiosamente para vê-la.
Eu realmente devo ser muito
estranho, mas não consigo resistir. Quando eu a espero e ela não passa, sinto
como se a Terra tivesse parado de girar, os hidrogênios do Sol tivessem parado
de colidir e o meu coração tivesse parado de bater. Tudo parado. Fico ali de
sentinela por algumas horas imaginando se ela teria se atrasado, imaginando o
que poderia ter acontecido. Teria adoecido? Sofrido algum acidente? Será que
passou mais cedo? Ou só tirou um dia para ficar em casa? Esses são dias vazios
e torturantes. Talvez minha vida seja vazia e torturante e talvez essa tenha
sido a forma que encontrei de dar sentido a ela. Ou não, talvez a culpa seja
mesmo dela, no ápice daquela perfeição, causadora da ira de Afrodite! Sim, até
a deusa do amor a veneraria, como poderia eu resistir?
Quer saber, já está quase na hora, eu vou até lá e fico bem escondido atrás da cortina, ela não vai me ver
hoje, não vai saber que eu estou ali todo dia, não vai saber que eu sou tão
estranho, vai achar que foi um simples acaso eu estar ali ontem bem na hora em
que ela chegava. Um outro dia, quem sabe, eu fico mais a vista e torço pra ela
acenar pra mim novamente, mas hoje não...
Lá vem ela, já consigo vê-la no fim
da rua. Acostumei-me com o seu andar elegante e o olhar sempre a frente, mas
hoje parece que há alguma coisa diferente. Ela vem com a cabeça baixa. E vem
rápido, quase tropeçando na própria passada. Está se aproximando mas ainda não
consigo vê-la com definição para afirmar, sem dúvidas, que há algo errado. Mas
eu já sei que há algo errado. Sim, agora eu sei de fato que há algo errado.
Apesar de cabisbaixa, mesmo com os cabelos cobrindo parte do rosto, mesmo
tentando se esconder com vergonha de andar pela rua naquele estado, percebi que
ela chorava.
Todo o esplendor esvaído. O que eu
faço? O que pode ter acontecido a ela? Minha vontade é de correr e alcança-la
ainda na rua, envolvê-la em meus braços e dizer que tudo vai ficar bem, que eu
vou protegê-la do que quer que a aflija, e então, talvez, se nossos olhos se
encontrassem, iria dizer que a amo mais que tudo nesse mundo. Mas ela nem me
conhece... Ou pior, talvez já tenha reparado que estou sempre a sua espera e
até conte histórias sobre mim para seus amigos: “o cara estranho que está
sermpre na janela”. De qualquer forma, eu preciso saber se ela vai ficar bem,
acabar com a causa de seu sofrimento, extinguir seus transtornos, trazer de
volta a ela a paz usual.
Sinto-me impotente. E covarde. Eu
sou mesmo um covarde... Medroso! Sempre fui! Um covarde consciente que sempre
teve medo de deixar de ser covarde. Aliás, esse deve ser meu maior medo: deixar
de ter medo. Não sei o que temo mais do que isso. E também nem sei porque esse
é meu medo, não é por opção, medo não se escolhe.
Pensando bem, talvez esse seja o motivo
de eu ainda estar aqui hoje, talvez seja esse medo que me prenda ainda à casa
dos meus pais e me impeça de mudar, de experimentar o novo, esse medo que me
faz envelhecer em uma vida vazia. O que eu fiz até hoje de que pudesse me
orgulhar? Qual o maior desafio que superei? É desesperador não achar respostas
para essas perguntas. E se eu morrese amanhã, minha vida teria feito a
diferença para alguém? Estou estagnado a tanto tempo que se tornou impossível
perceber, os anos parecem ter passado tão depressa, a corrida já está na metade
e eu nem comecei a correr. As minhas referências vêm somente das músicas e dos
filmes, do mundo mesmo eu não sei nada. Eu não sou nada.
Eu podia já há muito tempo ter me
apresentado a ela, e então poderíamos nos tornar amigos, poderíamos sair juntos
e logo ficaria óbvio para ela – assim como é pra mim – que nós deveríamos ficar
juntos para sempre. Mas não, estou hoje aqui do mesmo jeito e ainda nem sei seu
nome.
Meus olhos têm me mostrado a
perfeição, mas isso não me é mais o suficiente. Preciso estar perto, preciso
ouvir sua voz, conhecer suas histórias, sentir seu cheiro e tocar sua pele.
Senão estes meus olhos já não mais teriam razão de existir, apenas me
mostrariam o que eu não posso ter, matando-me de desgosto.
Hoje eu não tenho como vê-la
novamente, não tenho coragem de chamá-la em sua casa ou de estabelecer qualquer
outra forma de contato. Amanhã, no entanto, espero mudar todo esse cenário. Vou
finalmente acabar com essa tortura.
Sim, amanhã vou finalmente acabar
com essa tortura. Preciso inventar uma forma de conversar com ela, mais do que
um simples aceno, vou fazer parte de sua vida. Mas como? Imagino que para
outras pessoas seria fácil, mas para mim será, com certeza e sem exagero, a
tarefa mais dificil de toda a minha vida!
Poderia esperar por ela na rua, já
sei seus horários, quando ela estiver chegando eu estaria lá, inventaria uma
história qualquer e aos poucos ficaríamos conhecidos. Posso começar com um
cumprimento, falar do clima, em outro dia perguntaria se seu dia teria sido
agradável, depois perguntaria seu nome e então já seríamos conhecidos. Eu já
teria liberdade de visitá-la em sua casa, sairíamos juntos... Sim! Ou não...
Não sei. Eu não conseguiria falar com ela dessa forma, ou, se conseguisse, ela
não iria me responder, ou responderia apenas por educação.
E se eu esperasse por ela não aqui
em frente de minha casa, mas a algumas quadras daqui, simulando perfeitamente
que eu também estaria voltando para casa. Aí teríamos mais tempo para conversar,
eu poderia me apresentar, perguntaria finalmente aonde ela vai todos os dias,
se gosta do que faz e levantar hipóteses do que poderia tê-la feito chorar
hoje. Sim! Parece perfeito.
Já consigo imaginar, eu espero
furtivamente em alguma rua, assim que ela
passar eu a alcanço, a princípio ela fica envergonhada, responde brevemente.
Sim, já consigo imaginar...
“Olá!”
“Oi...”. Ela se surpreende e até se assusta, mas se
acalma quando me reconhece.
“Tudo bem?”. Eu pergunto como se
acreditasse que nosso encontro tivesse sido obra do mais puro acaso.
“Tudo”. Claro, ela não falaria para
mim tudo o que a atormenta, vou precisar de mais tempo.
“Está calor hoje, não é?”
“É...”
Não! Falar do clima não vai me
levar a nada! Preciso ser mais direto...
“Eu sempre vejo você passar por
aqui mais ou menos nesse mesmo horário, qual seu nome?”
Não. Não posso falar que sempre a
vejo passar, ela vai me achar estranho. Se bem que provavelmente ela vai me
achar estranho de qualquer forma. Mas seria melhor adaptar...
“De vez em quando eu vejo você
passar por aqui sempre nessa mesma hora, qual seu nome?”
Parece melhor. Então ela me diria
seu nome e eu diria o meu, já seria um ótimo começo. Se ainda não estivermos
próximos de casa, perguntarei também onde ela vai todo dia, quais seus planos
para o futuro, o que ela gosta de fazer, qual tipo de música prefere, quais os
filmes favoritos...
Se os ventos me trouxerem coragem,
poderia dizer o quanto eu a admiro...
Calma! Certamente isso geraria uma
situação constrangedora, eu não saberia como agir. E também, sei muito bem que
não conseguiria dizer isso, todas minhas forças já serão usadas para iniciar a
interação. Não teríamos tempo para tão aprofundado diálogo. Preciso ir devagar.
Primeiro preciso me concentrar apenas em como me apresentar. Acredito que dessa
forma tenho boas chances. Amanhã será o dia que marcará uma nova fase da minha
vida, vou dormir.
Mal consegui dormir essa noite. Nas
poucas horas em que o sono conseguiu me dominar, ela me apareceu em sonho.
Estávamos em um lindo parque correndo de mãos dadas, rindo sem motivo aparente,
nada nos preocupava, o mundo estava perfeito.
Logo mais, darei o primeiro passo
para transformar esse sonho em realidade.
Estou aqui em uma esquina a uma boa
distância de casa. Ela deverá passar a qualquer momento. O tempo está
agradável, eu estou com minha melhor roupa, cabelo arrumado, barba feita,
perfumado, impecável. Tudo corre bem, só preciso esperar. Será que hoje, assim
como ontem, ela estará desesperada em prantos? Espero que não. Se bem que,
pensando bem, seria bom, pois eu já estaria aqui pronto para oferecer um ombro
amigo, mostrar-lhe que ela não está sozinha. Não, melhor não. Primeiramente,
suas lágrimas me assustariam e eu não saberia como agir, e mesmo se me
superasse, ela ainda não me conhece, não compartilharia suas mágoas com um
estranho – em todos os sentidos.
E então eu desejei com todas as
minhas forças que meus olhos estivessem me enganando. Levei um bom tempo para
acreditar que o que eu via era real. Não é possível, como eu não tinha
considerado uma coisa dessas? Quando percebi o que acontecia, desejei com ainda
mais força sumir do planeta, mas permaneci estático, paralizado e incrédulo.
Ela se aproximava. Estava feliz. Bastante feliz, envolta nos braços de um mais
feliz ainda.
Ela me viu. E acenou pra mim... Ele
também.
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