Ela, quando criança, jogava-se sem culpa no colo de seu amigo mais velho. E amava estar ali, sentia a proteção paterna, o carinho de um irmão e o calor de um amigo.
Ele também adorava sua amiguinha. Fazia-a rir, ensinava-a e aprendia. Acima de tudo, impressionava-se com a forma sincera que ela o estimava.
Não muito tempo a seguir, as coisas foram gradualmente se tornando diferentes. Ela começou a evitar o contato físico, não havia mais abraços nem brincadeiras. Restara apenas conversas superficiais sem significado nem utilidade.
Ela sentia falta da proximidade e intimidade perdida. Não entendia porque não conseguia mais se entregar. Não sabia se era vergonha ou outra coisa. Havia em sua cabeça alguma voz dizendo que aquilo era errado, que não era um comportamento adequado para a mocinha a qual estava se tornando. Preocupava-se com o que as pessoas diriam, tinha medo de ser julgada, tinha medo do que o próprio destino lhe reservava. Preocupava-se com essas pequenas coisas que outrora eram indiferentes.
Ele também sentia falta do comportamento antigo de sua amiguinha, porém sabia que cedo ou tarde isso iria acontecer, sabia que, com o passar dos anos, ela iria se afastar e começar a ser mais reservada. Só não entendia o que motivava esse comportamento...
Ambos seriam para sempre saudosos à época em que a moral sem sentido da sociedade não tinha a menor importância.
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
O Caminhão
Seu nome era Fernando. Isso pouco importava pois poucos além de seus pais sabiam disso.
Era mais baixo que os garotos de sua idade, tinha traços definhados que combinavam com sua expressão. Não falava enquanto não lhe perguntassem, e mesmo quando lhe era interrogado, respondia brevemente sem emitir opinião.
Eu, com os privilégios de narrador onisciente, posso dizer que ele era muito mais complexo e dinâmico do que aparentava. Por traz do rosto mirrado se escondia um propulsor de ideias, uma mente interrogativa e observadora com potencial para revolucionar o mundo. Ele sabia que não era uma companhia agradável, que não era atraente e que construíra, sem querer, uma barreira que repelia qualquer tipo de contato físico mais íntimo. E sabia também que estava acima da média, que tinha um quê de genialidade em seus pensamentos. Queria que fosse diferente, queria trocar razão por emoção. Esperava que quando fosse um adulto com vida estável e de notoriedade intelectual pudesse reverter esse estado.
E assim foi postergando sua infância. Esperando que certo dia atingisse um ponto de maturidade onde deixaria de ser repulsivo e antipático. Enquanto esse dia não chegasse, continuaria focando-se nos estudos e nos seus planos acadêmicos para o futuro. Sentia falta da vida social, mas esperava ser reconhecido depois de divulgados os seus primeiros trabalhos.
Fernando (esse era o nome do personagem, esquecido leitor) estava, aos 22 anos, em seu quarto pensando -- quem visse da porta do quarto diria que ele não estava fazendo nada, mas eu novamente faço uso do poder de narrador onisciente para discordar: ele estava já finalizando mentalmente todo seu trabalho que ainda viria a ser digitado, visualizava de tempo em tempo todo o status que teria após a divulgação. Para ele, eram ideias que mudariam completamente a vida na Terra. Sua mãe entrou no quarto, viu o filho que aparentava a mesma expressão de tédio e pediu para que fosse à padaria em seu favor.
O filho prefiriria ficar em casa, mas já estava em débito com a mãe e acabou cedendo. Andava pela rua enquanto os pensamentos continuavam em seu futuro. Foi atravessar a avenida. Foi atropelado por um caminhão. Foi-se.
Era mais baixo que os garotos de sua idade, tinha traços definhados que combinavam com sua expressão. Não falava enquanto não lhe perguntassem, e mesmo quando lhe era interrogado, respondia brevemente sem emitir opinião.
Eu, com os privilégios de narrador onisciente, posso dizer que ele era muito mais complexo e dinâmico do que aparentava. Por traz do rosto mirrado se escondia um propulsor de ideias, uma mente interrogativa e observadora com potencial para revolucionar o mundo. Ele sabia que não era uma companhia agradável, que não era atraente e que construíra, sem querer, uma barreira que repelia qualquer tipo de contato físico mais íntimo. E sabia também que estava acima da média, que tinha um quê de genialidade em seus pensamentos. Queria que fosse diferente, queria trocar razão por emoção. Esperava que quando fosse um adulto com vida estável e de notoriedade intelectual pudesse reverter esse estado.
E assim foi postergando sua infância. Esperando que certo dia atingisse um ponto de maturidade onde deixaria de ser repulsivo e antipático. Enquanto esse dia não chegasse, continuaria focando-se nos estudos e nos seus planos acadêmicos para o futuro. Sentia falta da vida social, mas esperava ser reconhecido depois de divulgados os seus primeiros trabalhos.
Fernando (esse era o nome do personagem, esquecido leitor) estava, aos 22 anos, em seu quarto pensando -- quem visse da porta do quarto diria que ele não estava fazendo nada, mas eu novamente faço uso do poder de narrador onisciente para discordar: ele estava já finalizando mentalmente todo seu trabalho que ainda viria a ser digitado, visualizava de tempo em tempo todo o status que teria após a divulgação. Para ele, eram ideias que mudariam completamente a vida na Terra. Sua mãe entrou no quarto, viu o filho que aparentava a mesma expressão de tédio e pediu para que fosse à padaria em seu favor.
O filho prefiriria ficar em casa, mas já estava em débito com a mãe e acabou cedendo. Andava pela rua enquanto os pensamentos continuavam em seu futuro. Foi atravessar a avenida. Foi atropelado por um caminhão. Foi-se.
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