Escrevi essa crônica há 2 anos, talvez não partilhe mais de tudo que disse aí, mas ayways, aí está.
Eu estava entediado admirando o teto. Meus pensamentos vagavam infinitamente. A cada minuto voltava minha atenção para a tela do computador, que outrora já servira muito para me divertir, agora não passava de um aparelho ultrapassado e sem muitas utilidades. “Como a tecnologia avançava! O que ontem era novidade, logo já estava aposentado e substituído”.
Outros pensamentos assim, sem muita importância, me vinham a cabeça, mas não me importava, minha vida continuava na mesma rotina e aquilo me deixava cada vez mais inquieto.
Precisava mudar, experimentar coisas novas, viver e aproveitar todos os anos que me escapavam. Em breve a idade chegaria e não teria mais tempo ou disposição para sair ao mundo. Mas nada de muito radical também podia fazer, a situação financeira não permitia que eu pudesse me esbanjar de luxos e prazeres desnecessários.
E aquele dilema impregnou em minha cabeça e não me deixou, todas as tentativas de distração eram fracassadas.
Havia pouco tempo que chegara em casa vindo do mercado, entrei sorrateiro em casa, embora tenha idade suficiente para morar sozinho, morava com meus pais. Liguei a televisão para assistir o noticiário, para saber as diversas desgraças que aconteciam pelo mundo. Logo a primeira notícia que passava no monitor mostrava o novo ganhador da loteria, felizardo! Seu sorriso ia de orelha a orelha, também pudera, acabara de embolsar milhões de reais.
Como eu invejava aquela fortuna! Sonhava tanto em enriquecer e pessoas conseguiam assim, apostando na sorte. De que me adiantara tanto estudo e tempo perdido em minha adolescência se iria apodrecer naquela cadeira na casa dos meus pais. Fazia vários tipos de trabalho para ajudar nas despesas da casa enquanto meu diploma mofava na gaveta. Quando criança achava que assim que deixasse a faculdade encontraria minha fortuna, mas as coisas não foram nada do jeito que achei que seriam... elas nunca foram.
Cansado de ficar ali, agonizando minhas idéias, saí na rua para esperar alguma coisa acontecer. Como se estivesse esperando que o bilhete premiado da loteria caísse do céu e resolvesse todos meus problemas. Estava tudo calmo, a rua não era movimentada, ficava num bairro afastado do centro, por ali só passavam alguns moradores.
Olhei para os lados e concluí que nada aconteceria ali, estava decidido a voltar quando uma linda mulher aparecera dobrando a esquina. Ela andava olhando ao redor, procurando por alguma coisa. Era perfeita; o jeito de andar, o balançar ondulante dos cabelos, a expressão do olhar preocupado e encantador.
Ela estava se aproximando e eu não conseguia deixar de olha-la. Quando estava a alguns metros de mim, nossos olhares se encontraram, ela sorriu e eu me senti envergonhado, estava de chinelos, com o cabelo desarrumado e uma camiseta amassada. E, como um sonho, ela veio em minha direção:
– Oi, você, por acaso, sabe onde é a Rua Europa?
Gaguejei:
–É... Aquela ali embaixo, só entrar a direita.
Ela agradeceu com um sorriso inesquecível e saiu sem deixar eu falar mais nada.
– Filho, vem me ajudar com a roupa!
– Já vou, mãe – Entrei.
E de repente as coisas começaram a fazer sentido.